11 dezembro, 2015

"Carta para os teus pais"
(Não é a primeira vez que vos escrevo. Mas isso não precisam saber.)
Não foram os melhores pais. Ou saberei eu já ter tudo preto no branco para vos puder dizer tal coisa? A verdade é que sempre o disse para mim mesma. Mas, à parte disso, tenho memórias mas não tenho saudades. Tinha eu três anos quando me ensinas-te a cuidar dos meus brinquedos. E lembro-me desse dia porque eu escondi a barbie para lhe arrancar o cabelo, só porque tinha medo. Ensinaste-me que eu deveria cuidá-los para que, mais tarde, pudesse fazer deles boas memórias da minha infância, e ter sempre presente algo tocável e que me fizesse sorrir. Ensinaste-me que uma menina não brincava com meninos, e que eles eram todos maus. Isso, só para que eu fosse uma menina dentro dos teus ideais de mãe. Ensinaste-me que a casa da avó seria o primeiro lugar que deveria ir quando me sentisse triste. E que ela sempre, mas sempre, faria o que tu não conseguias. Que os monstros debaixo da cama só existiam para as meninas que se esqueciam de lavar os dentes antes de dormir. E disfarçavas, ficando contente por eu nunca ter “encontrado” um. Ensinaste-me que quando fosse sim seria sim, quando fosse não seria não. E que só falarias uma vez. A tua mão levantada metia mais medo do que quando gritavas o meu nome, e a cara ruim que fazias só para me assustar não era nada ao pé do teu dedo espetado, e da tua voz levantada. Ensinaste-me a distinguir o bem do mal, mas nunca me soubeste dizer que ensinarias tudo isso para eu, mais tarde, tomar a decisão mais difícil de todas. Ensinaste-me que as outras meninas só eram minhas amigas para brincar com os meus brinquedos. Ensinaste-me tanta coisa, mas esqueceste de me ensinar a lidar com a perda de uma mãe. Com a tua rejeição e indiferença. E tu, pai, o que se passou também? Eras o oposto da mãe. Mas, mesmo assim, completavam-se de maneiras tão únicas. Ensinaste-me a andar de bicicleta e a passar o batom vermelho da mãe para disfarçar os arranhões nos joelhos. E funcionava muitas vezes. Ensinaste-me a jogar bowling, e fazias questão de perder só para eu ir dizer a todos que tinha ganho mais uma vez, e outra, e outra. Levaste-me a um campo de golfe e “roubámos” umas bolas por lá perdidas. Saíamos de casa sem a mãe saber para irmos comer pizza, e davas sempre a volta à mãe para ela não brigar. Ensinaste-me que os meninos maus não existiam, mas que não deveria ser amiga de nenhum. Tudo isso porque fazias questão de dizer que eu era a tua menina. Somente tua, e de mais ninguém. Lembras-te quando me queimei? Foste o primeiro a chegar e o último a sair. À parte disso, não me ensinaste a lidar com a tua indiferença, apenas com o teu vou-ausência-regresso, por apenas umas horas. Souberam-me dar poucas memórias, ensinaram-me muita pouca coisa, mas deixaram nas minhas mãos a pior decisão de todas. Decisão essa que não tinha que existir, não tinha que ser assim: a escolha, seguida da partida. Não sei se ainda usas aquele batom vermelho que tanto fazias questão de estar sempre a comprar, muito menos se já gostas de usar cores vivas nas unhas. Mas, sei que, hoje, és uma pessoa muito importante no teu meio de trabalho. Também não sei se tu, pai, já conseguiste o que sempre quiseste ambicionar. Mas, sei que, hoje, a saúde tem-te sido uma amiga menos boa. Sei isso e não sabes/m nada de mim. E preferiram assim. E, no fundo, fico feliz que tenham conseguido a vida que sempre quiseram. Especialmente a mãe. Lembras-te quando me ensinaste que a casa da avó seria o lugar para onde teria que ir? Parece que tinhas razão. Ela fez o que não fizeste, disse o que não disseste, ensinou o que não ensinaste. Zangou-se muitas vezes, e fez-me sorrir outras tantas. E, hoje, juntas, relembramo-nos de tudo isso, docemente. Por vezes, sai-me, e chamo-a de mãe, e se visses/m o sorriso nos olhos dela... enche-me o coração! E eu e vós, não temos nada para lembrar e relembrar. Fui obrigada a crescer muito depressa, e a culpa será sempre vossa. Podem-me dizer como é ser, e sentir, que são uns pais que as outras meninas não gostariam de ter?

13 comentários:

Miguel Gouveia disse...

Mesmo!!! Acredita que me vi grego para escolher o modelo!!!
Obrigado <3

Que texto incrível. Há muitos pais que só são pais no papel. Como se costuma dizer na gíria: "parir é dor, criar é amor!".
Os avós acabam por ter sempre um papel fenomenal!


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Simple Girl disse...

Oh querida, lamento imenso que as coisas tenham acontecido assim. Espero que num futuro próximo alguma coisa mude para melhor entre vocês, força!

Simple Girl disse...

r: Nem sabes a alegria que me deste ao comentar o post de ontem!! Se não fosses tu ontem não teria conseguido fazer o sorteio.
Obrigada por te teres inscrito eheh :)

Simple Girl disse...

r: Nem mais querida... Não tens de quê, ora essa!

Andreia Morais disse...

Fiquei sem palavras! Infelizmente, há muitos pais que só o são de nome

Daniela da Costa Silva disse...

Já o comprei, gostei imenso dele!
E gostei desta carta, é triste mas por vezes é isso que nos fortalece :)

Simple Girl disse...

r: Desde que estejas bem é o que realmente importa, o resto são acréscimos! Para variar, os avós acabam por ter o papel de mãe/pai. Concentra-te na tua avó, ela sim, foi uma grande Mulher :)
Não há problema querida, o que importa é que conseguiste inscrever-te mesmo a tempo eheh
Não tens de quê, sempre que precisares podes contar comigo, seja o que for!!!

Inês Brito disse...

Texto mesmo tocante, não escolhemos a família mas felizmente tens uma avó que te adora! ❤

Simple Girl disse...

r: Muito obrigada querido :)

Miguel Gouveia disse...

Sabes bem que não precisas de agradecer. Aos poucos e poucos vamo-nos conhecendo todos... E isso é o lado positivo da blogosfera! Vocês também já me ajudaram muito sem sequer perceberem <3

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Morning Dreams disse...

Adorei este texto, tão profundo!

xoxo, Sofia Pinto
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Renata disse...

Lamento tudo o que passaste e tenho a certeza que tudo o que passaste te fez crescer imenso. Afinal, tudo acontece por uma razão.
Bonita carta.

Ísis disse...

Muito, muito tocante este texto. Lamento imenso o que passaste e pensa que depois da tempestade vem a bonança.